Violência
A violência é um dos maiores tabus do mundo contemporâneo. Nas sociedades liberais e democráticas, ela é vista como fracasso, algo a ser contido a todo custo. A política moderna busca substituí-la por diálogo e instituições, imaginando a violência como algo primitivo e indesejável.
Esse olhar contrasta com o universo militar. Para o soldado, a violência não é uma anomalia, mas é um elemento central de sua razão de ser. Treinamento, doutrina, armamentos e organização existem para aplicá-la contra o inimigo, e o soldado não apenas deve conhecê-la; ele deve acreditar nela. Surge, assim, uma tensão entre a sensibilidade civil, que a vê como problema, e o ethos militar, que a entende como solução. Em tempos de paz essa diferença pode ser ignorada, mas em guerra ela se torna determinante, pois nenhuma força armada sobrevive sem aceitar a violência como instrumento legítimo.
A tradição clássica já reconhecia a violência como elemento estrutural da política. Tucídides mostrou, na Guerra do Peloponeso, que medo, interesse e honra prevalecem sobre abstrações de justiça. Maquiavel destacou que a preservação do Estado exige, em certos momentos, o uso calculado da força. Clausewitz definiu a guerra como continuação da política por outros meios, ato de força destinado a compelir o inimigo à nossa vontade. Esses pensadores, em épocas distintas, convergem na ideia de que a violência não é uma exceção, mas um dos fundamentos da ação política.
O refinamento teórico moderno aprofunda essa compreensão no campo da estratégia. A essência da estratégia, segundo Colin S. Gray, é o vínculo entre meios e fins. Ele define estratégia como “a direção e uso dos meios por caminhos escolhidos para alcançar fins desejados”, sendo a estratégia militar a aplicação da força e da ameaça de força para os objetivos definidos pela política. Por sua vez, Max Weber observa que o monopólio da violência legítima define o Estado moderno. Assim, a estratégia não se reduz a planejamentos ou tecnologias, tratando-se de reconhecer que a violência organizada é o instrumento político fundamental, a ser direcionado de maneira consciente e adaptativa para atingir objetivos políticos definidos. Ao contrário de abordagens que reduzem a guerra a falhas morais ou culturais, essa perspectiva a encara como fenômeno estrutural e inevitável.
Aceitar a violência como instrumento não significa glorificá-la, mas reconhecê-la em seus limites e funções políticas. O estrategista eficaz entende que a força pode impor soluções rápidas e decisivas, poupando sofrimentos prolongados. A profissão militar exige não apenas a capacidade técnica de empregá-la, mas a convicção íntima de que ela funciona. O ethos militar é construído para consolidar essa fé, canalizando a violência como dever e não como barbárie.
A rejeição da violência mina a ação militar. Forças hesitantes e burocratizadas surgem quando se teme ofender sensibilidades civis, o que leva ao cultivo de uma imagem pacifista. A história mostra exércitos derrotados mais por falta de convicção do que por carência de recursos. A ideia de que a violência nunca resolve nada é ilusória. Guerras encerraram disputas, golpes derrubaram regimes, operações militares impuseram acordos e transformaram realidades. A paz de Vestfália, o equilíbrio europeu do século XIX, a ordem do pós-Segunda Guerra Mundial e a dissuasão nuclear demonstram que a estabilidade frequentemente depende da coerção.
A violência gera efeitos concretos, destruindo capacidades, alterando comportamentos e impondo limites. Um bloqueio naval ou a destruição de um centro de comando têm mais impacto que dezenas de notas diplomáticas. Estados não sobrevivem apenas com normas e valores, mas porque há instituições dispostas a aplicar a força em defesa de sua existência.
Para as Forças Armadas, essa verdade é ainda mais clara, pois sua razão de ser repousa na capacidade de aplicar a violência com legitimidade e eficácia. Sociedades desejam paz e segurança, mas esses bens só existem porque foram conquistados, mantidos ou restaurados pela ação violenta. O pensamento estratégico deve preparar para essa realidade, educando para o uso comedido da força, não para sua recusa.
Uma sociedade que rejeita a violência em absoluto acaba indefesa diante de inimigos que não compartilham da mesma crença pacifista. O militar não deve ter prazer nela, mas não pode hesitar em usá-la, pois há coisas que apenas a força pode proteger.



